quinta-feira, 29 de agosto de 2024

                                                   Mito Inuíta da Criação do Mundo

 

         Tudo era oceano, no fundo das águas habitava a baleia una que resguardava a existência. Quando a alva baleia se escondia nas profundezas, era noite e ao ascender à superfície sua imensidão branca irradiava e então era dia. 

         Por muito tempo, existiu apenas, mas após viver o tempo de mil vidas humanas, apercebeu-se que era real como as ondas e o firmamento, e padeceu da maleita do tédio. Entediada, entocava-se em gigantescas fossas abissais e hibernava- em seus sonhos, ouvia indecifráveis melodias que se sobrepunham e emaranhavam-se formando sombras que a baleia não reconhecia. 

         Presa em sonho, nas profundezas, esqueceu-se de trazer luz, a noite pintou o oceano em negro e arrefeceu o mundo, formaram-se pequenas teias geladas, endurecendo as águas. Quando todo o oceano se fez sólido, a baleia teve frio e despertou, incandesceu em seu caminho à superfície, viu o gelo e achou que aquilo era bom. Porém, a baleia, ao ver a imensidão branca e vazia foi perturbada pela memória dos crípticos sons que ouvira outrora em sonho e julgou o mundo demasiado quieto.

         A baleia então, cuspiu um dos seus pontudos dentes e com ele moldou de suas volumosas fezes pequenas criaturas que posicionou no monólito e pediu-as que cantassem. As criaturas, homens e mulheres, entoaram acordes dissonantes, nada parecidos com os que a baleia havia sonhado e por isso odiou sua criação. 

         A terceira geração de criaturas passou a também odiar a baleia, sua vasta brancura e seus sonhos perfeitos. Com os ossos dos primeiros homens, construíram lanças e esperaram. Quando a baleia trouxe o dia, cravaram-na de lanças, comeram sua carne e lamberam seus grandes olhos brilhantes.

         A baleia, que vivia em luz dentro dos olhos, teve pena e fez com que as criaturas tomassem conhecimento de que eram reais como o gelo, o oceano, o dia, a noite e a baleia; tiveram tédio, jogaram a imensa carcaça às águas, que se desvaneceu em peixes e sonhos.

 

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